Dislexia e ortografia: o que os erros de escrita podem nos revelar?
Nem todo erro ortográfico é sinal de dislexia. Mas todo erro pode nos contar algo sobre como a criança está aprendendo.

Quando uma criança troca, omite ou inverte letras, é comum que pais e professores se preocupem. Afinal, até que ponto esses erros fazem parte do processo natural de alfabetização? Quando passam a indicar uma dificuldade de aprendizagem? E quando podem ser sinais de dislexia?
A ortografia da língua portuguesa é complexa. Um mesmo som pode ser representado por diferentes letras, algumas palavras seguem regras e outras exigem a memorização de convenções. Escrever corretamente envolve muito mais do que conhecer as letras.
Estudos revelam que os erros ortográficos não são todos iguais e podem ter origens diferentes. Trocar letras que representam sons semelhantes, omitir partes de palavras ou inverter a ordem das letras pode indicar dificuldades em habilidades importantes para a aprendizagem da escrita. Já os erros relacionados às regras ortográficas e à acentuação podem estar associados tanto ao desenvolvimento dessas habilidades quanto às oportunidades de ensino.
Pesquisas que comparam crianças com dislexia, crianças com dificuldades de aprendizagem e aquelas com bom desempenho escolar mostram diferenças importantes. As crianças com dislexia tendem a apresentar mais erros relacionados à correspondência entre sons e letras, omissões e inversões, enquanto erros envolvendo regras ortográficas também aparecem com frequência em crianças sem dislexia. Isso nos lembra que não basta contar os erros: precisamos compreender sua natureza.
Outros estudos mostram que crianças com dislexia podem apresentar perfis de erros diferentes, inclusive quando há outras condições associadas, como o TDAH. Portanto, um mesmo resultado em um ditado não significa necessariamente a mesma dificuldade. A avaliação precisa investigar como a criança processa a linguagem, lê, escreve e utiliza seus conhecimentos ortográficos.
Embora a Fonoaudiologia ainda seja frequentemente associada apenas aos problemas de fala e audição, sua atuação é muito mais ampla. A leitura e a escrita também fazem parte de seu campo de atuação, e existem fonoaudiólogos com formação especializada em linguagem escrita e transtornos de aprendizagem.
Esses profissionais conseguem investigar as habilidades envolvidas na aprendizagem, identificar possíveis sinais de dislexia e propor intervenções fundamentadas em evidências científicas.
Mas o trabalho não termina na clínica. Uma boa intervenção precisa estabelecer uma ponte entre os três ambientes: clínico, escolar e familiar.
Na clínica, são trabalhadas as habilidades que necessitam de desenvolvimento. Na escola, as orientações ajudam a adequar estratégias de ensino e acompanhamento. Em casa, a família aprende a apoiar a criança sem transformar a convivência em uma sequência interminável de exercícios, correções e cobranças.
Não se trata de exigir mais esforço da criança, sobrecarregar professores ou transformar os pais em terapeutas. Trata-se de compreender o que está acontecendo e construir caminhos possíveis, respeitando as necessidades de cada um.
Ao longo da minha experiência como fonoaudióloga e psicopedagoga escolar, percebo o quanto esse diálogo entre profissionais, escola e família pode transformar a trajetória de aprendizagem de uma criança.
Antes de corrigir repetidamente um erro, precisamos compreender sua origem. Antes de exigir mais esforço, precisamos descobrir de que ajuda a criança realmente necessita.
Porque aprender a escrever corretamente é importante. Mas preservar a confiança, a curiosidade e o prazer de aprender também é.
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